A missão de Beth na Fazenda dos Coqueiros foi transformar herança em memória e reconhecimento dos povos escravizados no Bananal

Beth e seus irmãos herdaram a Fazenda dos Coqueiros, propriedade que pertencia à família há quatro gerações. Entretanto, ela se interessou por administrar e criou o seu legado. Com o apoio de historiadores, eles organizaram visitas guiadas e captaram recursos para a restauração do local. Foi em uma dessas ocasiões que conheci Beth Brum e tive o privilégio de assistir à sua palestra sobre a história da fazenda e os eventos nela ocorridos.
Segundo ela, Bananal era mais importante do que São Paulo no século XIX, por ser o reduto dos barões do café — homens tão poderosos que chegaram a financiar a dívida de Portugal com a Inglaterra. No entanto, ao pesquisar a história do Vale do Paraíba, Beth percebeu que os registros costumavam exaltar apenas a elite. Ela foi enfática ao corrigir essa visão: “Na verdade, quem construiu tudo isso foram os escravizados”.
Por isso, o projeto idealizado por ela, busca inverter o foco: em vez de celebrar os saraus, as festas e o luxo dos barões, como em outras fazendas do Vale do Paraíba, Beth dedicou-se a difundir o legado dos povos africanos. Muito da nossa cultura, do nosso dia a dia tem origem africana, algo que muitas vezes ignoramos ou nem sabemos. Ao manter viva essa memória, ela presta uma homenagem àqueles que deram o sangue na construção do Brasil, afirmando ser esta uma dívida histórica.
Um dos pontos mais impactantes de sua pesquisa foi descobrir as funções dos escravizados na fazenda herdada, como a figura do “escravo lambedor” que tinha o trabalho desumano de lamber as feridas de seus senhores para que houvesse uma cicatrização mais rápida, isso porque naquela época, acreditava-se que o cuspe era cicatrizante.
Havia também os escravizados conhecidos como “tigres”, responsáveis pelo transporte de dejetos humanos até os rios. O contato constante com a acidez das fezes e da urina causava queimaduras e deixava manchas permanentes em seus corpos, o que deu origem ao nome.
Outra face cruel desse período envolvia as jovens escravizadas, forçadas a engravidar para servirem como amas de leite para os filhos dos barões. Seus próprios bebês eram retirados delas e vendidos para outras propriedades, impedindo qualquer contato futuro. Segundo Beth, essa separação das famílias era uma das maiores dores da escravidão, utilizada como estratégia de controle: ao desestruturar o núcleo familiar, os senhores buscavam enfraquecer os laços emocionais e evitar possíveis rebeliões.

A História da Fazenda dos Coqueiros e o “Menino de Ouro”
A apresentação aconteceu onde os escravizados eram negociados, uma construção próxima à casa grande da fazenda. O primeiro proprietário da Fazenda dos Coqueiros não deixou herdeiros. A propriedade foi então comprada por um casal português cujo filho tinha graves problemas de saúde. Na corte, a criança ficou conhecida como “Menino de Ouro”, devido a uma promessa feita pelos pais: se ele sobrevivesse até a adolescência, doariam o equivalente ao seu peso em ouro para a Santa Casa de Misericórdia.
O menino sobreviveu e tornou-se o Barão Ribeiro Barbosa, que viria a ser um dos principais traficantes de pessoas escravizadas na região. O comércio humano era extremamente lucrativo: o valor de um escravizado era determinado por critérios físicos. Canelas finas e dentes fortes eram sinais de juventude e vigor, elevando consideravelmente o preço de venda.
Em relatos de visitas guiadas e registros de hipotecas da época, menciona-se que a fazenda mantinha, em média, 300 escravizados declarados.
Herança Culinária: O Sabor da Resistência
A influência africana moldou profundamente o paladar brasileiro. Iguarias que hoje fazem parte do nosso cotidiano, como a broa de fubá, a cocada, o pé de moleque, a paçoca, a canjica e o cuscuz, também alguns ingredientes trazidos da África, incluindo o gengibre, diversos tipos de pimentas e temperos aromáticos.
O carro-chefe dessa herança é a feijoada. Existe uma visão romântica de que ela surgiu pelo descarte dos barões, a história é mais profunda: os escravizados transformavam as partes menos nobres do porco (como orelhas, pés e rabo), que lhes eram entregues, em um banquete de resistência. Então adicionaram as sobras e cozinharam juntamente com feijão e os temperos africanos, assim nasceu a feijoada, que acabou conquistando todas as classes sociais e se tornou a maior marca da identidade gastronômica do Brasil.
A Linguagem Subliminar do Jongo
Para entretenimento, os escravizados criaram o Jongo, uma combinação de canto, batuque e dança, com versos engraçados, mas intrigantes e com uma conotação subliminar. No Vale do Paraíba, o Jongo era utilizado como uma comunicação estratégica entre os escravizados, quando eles trocavam mensagens importantes sem que os feitores e barões compreendessem o verdadeiro significado.
Os versos conhecidos como “pontos”, eram ingênuos, mas inteligentes. Um exemplo clássico citado por Beth são os versos do tatu. Quando eles cantavam sobre o tatu cavando a terra ou se escondendo no buraco, estavam na verdade usando códigos. Podiam estar avisando sobre a chegada de um feitor, combinando uma fuga ou fofocando sobre o que acontecia na fazenda. Tudo isso acontecia na cara dos senhores, que achavam que era só uma diversão, sem imaginar que aquela música era o jeito que eles encontravam para lutar e se proteger.
Para Inglês Ver
O Brasil estava sendo pressionado para acabar com o trafico e a escravidão, mas os barões não queriam de forma alguma. Então para não sofrer punições, o governo brasileiro criou leis que, pareciam boas, mas que ninguém cumpria na verdade. Um exemplo: a Lei da Ventilação. Para driblar a lei, os barões mandavam pintar janelas nas paredes, para parecer que havia parte arejada e os escravizados tinham ar puro. Na verdade, era tudo uma grande encenação! Por vezes não havia janela alguma ou eram apenas buracos minúsculos. Mas, onde entra o inglês nesse contexto? Os encarregados de fiscalizar as fazendas eram justamente os ingleses. Eles passavam de trem e viam as sezalas com “janelas” e não paravam para averiguar, acreditavam que aquela fazenda estava de acordo com a legislação.
Mistérios na Fazenda
Beth relata alguns episódios ‘estranhos’ ou sem explicação plausível. Adeptos de várias crenças e religiões visitavam a fazenda em busca de explicações para alguns fatos. Um deles, é sobre um quarto na casa grande, onde era mantida a sua tia-bisavó que era esquisofrênica e que ali viveu e morreu. O quarto era tido energeticamente “pesado”.
Um Legado de Voz e Memória: A Missão de Beth Brum
A Beth nos deixou em maio de 2021, mas a sua voz sempre vai ecoar em cada canto da Fazenda dos Coqueiros. Ela transformou uma herança de família em um compromisso de vida, provando que o verdadeiro valor de uma propriedade histórica não está no luxo das paredes, mas na coragem de contar a verdade sobre quem as ergueu. Hoje, o seu legado permanece vivo através do seu projeto, garantindo que a memória dos povos africanos não seja apenas um capítulo esquecido do passado, mas uma lição eterna de resistência e respeito que continuará sendo compartilhada com cada visitante. Fizemos um tour à Fazenda dos Coqueiros, anos atrás, e no vídeo, ela apresentou a história da fazenda de forma preciosa. Postamos o vídeo no canal Vamu Ver Viagem no YouTube.


